Biografia de Heitor Villa-Lobos

   Em 1887, 05 de março, nasce na rua Ipiranga, em Laranjeiras, Rio de Janeiro, Heitor Villa - Lobos, filho de Raul Villa - Lobos e de Noêmia Monteiro Villa - Lobos.

Seu pai era homem culto, professor funcionário da Biblioteca Nacional, autor de várias obras sobre história e coreografia do Brasil, tinha muita sensibilidade e tinha muito amor: a música.

Duas vezes por semana reunia na sua casa, para uma noitada musical, vários componentes dessa sociedade Sinfônica, e que além de amigos e bons músicos, tinham também projeção em outros setores.

Foi fundador da Sociedade de Concertos Sinfônicos no Rio de Janeiro, a primeira, no gênero a existir na cidade.

A mãe, Noêmia Monteiro Villa - Lobos, era também filha de músico - Santos Monteiro - que se notabilizara autor de quadrilhas, sendo a mais conhecida a "Quadrilha das moças", que era dançada no Paço e nos Saraus da Marquesa de Abrantes.

A preocupação de Raul e Noêmia era a sobrevivência do filho, miudinho, nascido de sete meses, tratando - o então de alimentá - lo bem e fazê - lo dormir no seu bercinho, recebendo o nome de Heitor, ganhando, carinhosamente, miudinho apelido de "Tuhu".

Heitor foi crescendo, e o amor, desde cedo pela música vem do avô materno - o autor da Quadrilha das moças e principalmente vem do pai. Nas noites de música que o professor Raul promovia em sua casa, "Tuhu" conseguia escapulir do leito, sem ser notado pela mãe, e aproximar - se da sala onde o pai e os amigos tocavam, escondia - se por trás de um móvel, para evitar olhar reprovador paterno, e ficava embevecido a ouvir aqueles sons que o levavam a um lugar de encantamento. Tuhu era logo descoberto e o pai, fixando - o com dureza, o mandava subir, em continente , para o seu quarto de dormir.

Aconteceu, porém que uma noite, Tuhu foi acordado com os sons de flautas, violoncelo, piano. Sabia que o pai e os amigos estavam na sala a tocar, não poderia descer e que o melhor era fechar os olhos para dormir logo. Mas como dormir se o que ouvia era tão lindo. Sentou - se na escada às escuras e assim pode escutar aquela música que parecia vir do Céu. Já alta hora da noite, dona Noêmia, encontrou o menino adormecido, colocando - o na cama. Foi quando Raul Villa - Lobos sentiu que o filho trazia a vocação da música.

Heitor estava com seis anos quando foi viajar com seus pais para o interior de Minas Gerais e ficou fascinado quando descobriu na roça um novo Mundo de sons: os ponteios das violas e rabecas caipiras, passando a amar a violinha sertaneja e admirar seus tocadores, os músicos caipiras deste Brasil.


E assim, o miudinho Tuhu, quando ouvia um ponteio de viola, que vinha dos lados do barracão de um comerciante, onde os caipiras tocadores se juntavam para tomar uma pinguinha, Tuhu corria para lá. Os caboclos punham as violas, rebecas e sanfonas em ação, estabelecendo - se uma roda. E horas seguidas ficava o menino escutando e indagando - os. Dona Noêmia, apreensiva pedia à Deus que livrasse o seu menino da boêmia que, vem com a música. A verdade é que o pai, apesar de sua dificuldade em lidar com criança, compreendeu desde cedo a tendência musical do garoto. Por isso uma viola foi adaptada em violoncelo, passando a dar aulas a seu filho.

Voltando ao Rio de Janeiro, que também andava infestado por violeiros, e já Tuhu estudando violoncelo, sempre dava jeito de fugir para o terreno baldio, onde empinava papagaios com os moleques e aprendia Capoeira. Um dia, porém, o pai surge no terreno, justamente quando o capoerista lhe ensinava a passar uma "tesoura"; claro que o professor Raul não só lhe aplicou uns bons "cascudos" como lhe amarrou a perna no pé da mesa de jantar, que o conservava preso até o seu regresso do trabalho, à tarde. Mas a mãe carinhosa desatou os nós da corda na perna e Tuhu, livre, voou para o campo dos moleques. Foi então que, de repente, lembrou-se que o pai estava na hora de voltar, voltou correndo para a casa, a implorar à irmã que o amarrasse de novo.

Um dos fatores mais positivos de sua formação musical foi o ditado, sempre cantado, que o pai lhe ensinava pela manhã.
Um comércio ambulante e cantante pelas ruas da Tijuca, Rio de Janeiro, onde Heitor residia o encantava. Eram os pregões, era o realejo com seu piriquitinho, o canto das crianças a brincar de cirandar. A noite vinha o acendedor de lampiões.
A mãe de Tuhu, ficava apreensiva quando o ouvia tentando tocar clarineta e pediu A Deus que o livrasse da boemia que vem com a música, pois se lembrava de seu pai autor de Quadrilha das Moças e praticante da boemia carioca.

Aos onze anos Heitor já havia aprendido com o pai a embocadura da clarineta e seu pai o levava tomar conhecimento com a música dos cantores nordestinos, e ali conhecia os escultores e folcloristas como Silvio Romero, Barbosa Rodrigues e Melo Morais.
Mas em 1899, o pai aos .39 anos veio a falecer de varíola e a família ficara na pobreza recebendo apenas a pequena pensão que o marido deixara. D. Noemia começou a trabalhar para a confeitaria Colombo, lavando e passando as toalhas e guardanapos.
Heitor muito triste, pois não tinha mais a exigência do professor de música. O pequeno violoncelo ficara abandonado e sua mãe o alimentava de sonhos. Tentou iniciar a vida como office - boy em uma firma importadora de vinhos e conservas, porém logo de início fora despachado do armazém por ser autoritário.
Heitor foi para casa, retirou a clarineta do pai da caixa, e tocou o que o pai lhe havia ensinado. Depois, o violoncelo, o arco e tocou. Passou então a fazer pequenas composições. A família toda se encantava com o novo compositor. Assim compusera "Os Sedutores", para piano e canto, cançoneta, a pedido da mãe, para uma festinha em família (1899).
Heitor começou a tomar gosto pelo violão, e Noemia reclamava, pois achava que o menino ia ficar um moleque perdido.
Conheceu José Rabello, Zé do Cavaquinho, que lhe ensinara capoeira ou a diverti -se pelo mato, nas artes de apanhar preás, e que era um notável tocador de cavaquinho era amigo de importantes chorões de serenatas e uma noite o levou para conhecer uma dessas funções.
Era um conjunto de tocadores de flauta, violão, cavaquinho, pistão, saxofone e outros instrumentos. Villa - Lobos via e ouvia as explicações de Zé do Cavaquinho, ficando encantado com este novo mundo, o mundo noturno a vagar pelas ruas do Rio de Janeiro, chamada de vida boêmia. Daquele contato com o Zé e seus amigos chorões compôs, aos treze anos, a "Panqueca", para vilão, sendo esse nome em homenagem a um de seus pratos favoritos, a panqueca.
Heitor não ouvia absolutamente o que a mãe lhe dizia para não se misturar com os cachaceiros de serenatas e o que lhe tocava a alma, naquele momento, era o violão.

Pediu a mãe para dormir no barracão de madeira que ficava no fundo da casa, pois era mais sossegado e ele poderia estudar melhor D. Noemia concordou pois queria que no futuro fosse médico e que o filho estava a tomar gosto pelos estudos. Logo que via a mãe deixar o quarto de costura e se retirar para dormir, saía sorrateiramente do barracão e ia juntar-se aos "perdidos" da música popular, assim tornando-se mais íntimos dos seresteiros para captar-lhes a amizade. Começou a vender alguns livros da excelente biblioteca do pai. Dinheiro apurado, pagava pingas para os tocadores e até chegou a adquirir um violão.
A mãe levantava-se à noite e via a luz do lampião no barracão de Tuhu, suspirando enternecida chega de tanto estudar, meu filho. Vá dormir, voltando para o quarto.
Tuhu entrava em casa pela madrugada, na ponta dos pés. Amarrava o violão debaixo do estrado da cama para que D. Noemia não o descobrisse, apagando a luz do lampião, indo dormir.
D. Noemia desconfiada com os estudos no barracão e uma dessa noite foi lá e não o encontrou. Ingenuamente achou que ele deveria estar em casa de Fifina, sua cunhada, ouvindo tocar piano. Na noite, Zé do cavaquinho assobiava para que Heitor se juntasse a eles.
D. Noemia desconfiada, na noite seguinte descobriu que o rapazinho entrava em casa pela madrugada, de violão no ombro. Avança para lhe quebrar o violão. Tuhu consegue escapulir da mãe e vai se asilar na casa de sua tia Fifina.

Em 1903, Santos Dumont tivera uma estrondosa recepção no Rio de Janeiro. O grupo de seresteiros, sob o comando do Zé cavaquinho, tocaram e cantaram em sua homenagem, estando entre eles Villa-Lobos. D. Noemia chegou a conclusão, junto a "santa Fifina", que ainda era melhor um bom seresteiro, um "perdido chorão", que um péssimo médico e, assim, D. Noemia se conformava. Assim as duas mulheres faziam gosto em dizer aos conhecidos, que o rapazinho já dava lições de violão a cinco mil reis. A alma do povo eram os "chorões perdidos", os ranchos , os seresteiros dos quais Villa fazia parte, sendo o ponto de encontro do grupo na rua do Carioca. Ali eles recebiam os convites para tocar em bailes e outras festas. O repertório do grupo constava de peças de Ernesto Nazaré, Calado, Luís de Sousa, Viriato, Catulo da Paixão Cearense, Satiro Beehar e outros.
Villa - Lobos aproveitou muito da convivência com os outros "chorões", que iriam se refletir, mais tarde, em suas composições. Eram criações mais elaboradas, com um sabor todo novo e bem brasileiro, pois as músicas que começava a compor partes do coração de seu povo. Tocava em seu violão tudo o que é muito nosso, com perfeição e gosto de exímio artista.
Porém, Villa-Lobos não convivia só com músicos de choros e serestas. Freqüentava as mesas das confeitarias Paschoal e da Colombo onde se reunia os intelectuais da boêmia, onde Villa era conhecido como o "menino do violão".
Eram: Olavo Bilac, Guimarães Passos, Anibal Teófulo, Calixto, Heimberto de Campos, Coelho neto, Rocha Pombo, Cardoso de Menezes, Lineu Marinho e outros.
Teve aulas na cadeira de harmonia com Francisco Braga, Bruno Nundemberg, assim iniciando o curso de composição. Tempos depois o Dr. Leão Veloso lhe trazia da Europa um curso de composição de Vicent D'Indy Assim estava feito o aprendizado.
Começou a tocar no Teatro Recreio (Rio de Janeiro) um repertório que incluía óperas, operetas e zarzuelas. Exibia-se também no cinema Odeon, em bares e cabarés. O repertório era: Xotes, valsinhas, dobrados e polcas.
Em 1905, com 18 anos, resolve percorrer o nordeste para recolher temas e canções folclóricas . Para isto ele vende a já desfalcada biblioteca de seu pai e com o dinheiro no bolso vai realizar o seu sonho, que é conhecer o Brasil palmo a palmo. Inicia a viagem pelo estado do Espírito Santo. Impressionando-se com a natureza, os pássaros e com o intenso velejar.

Vai conhecendo as cidadezinhas e nelas se apresenta como concertista, maneira de ajudar sua subsistência. Toma um navio de terceira classe que o leva a Salvador, a cidade da Bahia colonial e barroca. Percorre as vilas da cidade baixa escutando pregões das baianas vendendo acarajé e abará. Freqüenta terreiros de capoeira, candomblé. Atravessa rios, veredas e nas cidadezinhas escuta modinhas a lhe lembrar vestígios da música européia, a lembrar de Chopin.
Chega em Pernambuco, percorre as grandes feiras do nordeste, recolhendo música e letra dos frevos, repentistas, os acontecimentos narrados e cantados nos folhetos "poesia de cordel". Vai anotando e colhendo a música nordestina, os pregões. Hospeda-se em engenhos, percorre os sertões, escuta o plangente aboio do vaqueiro. Juntava-se aos grupos de músicos locais, aos autos do boi, da chegança, da nau Catarineta, ternos de reis e bailes pastoris.
Em 1907 retorna ao Rio. Viaja pelo Sul do país, para fazer pesquisas musicais.
Muito galanteador, bonito, simpático, alegre não lhe faltavam namorados. Desta vez era uma jovem fluminense, que realmente queria casar, e de uma formação burguesa. Porém achava que músico e compositor eram coisas para artista e que não traziam segurança. Então resolveu participar da fábrica da banana do futuro sogro como representante, no Sul. A noiva ficou a fazer o enxoval pensando no sucesso do noivo. Qual a surpresa! As bananas apodreceram e o pai da moça foi notificado do fracasso e o "noivado" foi desfeito.

Mas em Paranaguá, sul, arrumou outra noiva. Esta era filha de músico que tinha uma fábrica de fósforo de duas cabeças. Além de vocação para vender fósforos de duas cabeças, e também andava a fazer alterações nas partituras do futuro sogro, fazendo alterações inescrupulosas na melodia singela. Tudo fracassou.
Villa gabava-se de ter noivado oito vezes.
Sua permanência pelos Estados do Sul não lhe trouxera a mesma descoberta do nordeste, pois o folclore de lá era trazido pelos colonos Alemães, Poloneses e espanhóis.
Em 1907 está o rapaz novamente no Rio de Janeiro, como músico profissional a participar da noite carioca.
Em 1908, ao completar 21 anos escreve a primeira obra resultante de suas andanças brasileira: Cânticos Sertanejos.
Planeja nova viagem em direção Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso.

Não satisfeito vai para o Amazonas.
Em 1910 entra como músico de orquestra de uma companhia de opereta. As dificuldades foram minando e a companhia dissolve-se, terminando em Recife.
Villa seguiu para Fortaleza e lá se enamora de uma moça chamada Carmem. De lá segue para Belém, dando seus concertos cariocas. Consegue dinheiro e toma o navio e volta à Fortaleza para namoricar Carmem.
Em Fortaleza ele conhece um boêmio cachaceiro chamado Donizete, bom saxofonista.
Aventuram-se para Amazonas, Manaus, e se foram de mato adentro, atravessando caatingas e chapadas, serros e rios a pé e a canoa.. Villa-Lobos fazendo suas pesquisas, tocando violão e Donizete no saxofone.
Na expedição Amazônica, chegou a recolher mais de mil temas folclóricos. O guia prático que publicou anos depois, reúne parte dessa coleta.
No Amazonas conheceu uma inglesa que por ele se apaixonou e resolveram fugir para os Estados Unidos. Chegando à ilha de Barbados, o navio teve que encostar para reparos. Para pagar a estada no hotel foram tocar nos cabarés e nos bares da ilha, ele no celo e ela no piano.
Conseguiram alguns shillings e o amor esfriou. Ela continuou a viagem para os Estados Unidos e ele voltou para Belém.
Em Barbados escreveu as danças Africanas: Farrapós, Kankukus e Kankikis, isto é dança dos velhos, dos moços e das crianças.
Três anos fora do Rio e sem ninguém ter notícias, D. Noêmia, que o considerava morto, encomendara uma missa por sua inquieta alma.
Em 1912 está no Rio e escreve as óperas em um ato: Aglata e Elisa, que são mais tarde fundidas numa ópera em quatro atos, com o nome de Izath.
Villa-Lobos dizia que empregava a música folclórica para formar sua personalidade musical e o livro dele era o Brasil, não o mapa do Brasil, mas a terra do Brasil onde ele pisava, onde ele sentia, onde ele andava, onde ele percorria. Dizia que cada homem que ele encontrava no Brasil representava uma forma estética na concepção musical. Cada pássaro que acodia ao seu ouvido era um tema, onde se juntava outros temas invisíveis, imperceptíveis e abstratos, para tornar em forma de música, música de arte. Arte livre como é a nossa natureza; arte independente como são os pássaros no Brasil. Árvore sentimental como são os homens da nossa terra, o reflexo da sinceridade.
No princípio Villa-Lobos sofreu muito com a revolta daqueles que se agarravam à tradição. O Brasil levou muito tempo, muitos anos procurando a fisionomia de sua própria raça. O que interessava para ele era a natureza do Brasil o mistério do Amazonas e de outros rios que temos, como o São Francisco.
Na sua missão de São Sebastião aproveitou um ponto de macumba, tendo em suas obras manifestações dos cantos africanos, os da Península Ibérica e das selvas amazônicas. Musicalmente consegue transpor a natureza brasileira. No Uirapuru há manifestação da floresta Amazônica. Essa alma brasileira rasga os corações nos choros ou a cantilena nas Bachianas brasileiras n.º 05 cujo cântico deriva da própria matriz sentimental de onde proveram a Casinha Pequenina, Acorda Donzela, A Maré Encheu ... Compôs a série Petizada, para piano, sobre cantigas de roda; uma Sonata Fantasia n.º 01 para violino e piano, uma Suite Infantil, n.º 01 para piano e uma Suite Brasileira para Orquestra.
Já havia terminado o curso de piano no Instituto Nacional de Música (hoje Escola Nacional de Música) e lecionava no colégio Sacré - Coeur e tinha algumas alunas particulares.
No dia de todos os Santos (01/11/1912) recebeu a visita de uma amigo, Artur Aloes, que trazia Lucilia Guimarães, pianista, para ouvir um rapaz que tocava violão muito bem.
A noitada de música correu muito bem sendo um sucesso. Em seguida Villa-Lobos manifestou desejo de ouvir a pianista, que tocou Chopin, cuja a interpretação e a técnica impressionou Villa-Lobos. Um segundo encontro foi Villa ao violoncelo e Lucilia acompanhando-o ao piano. Outras reuniões se sucederam, e os contatos repetidos culminaram em noivado.
Em 12 de novembro de 1913 casaram-se. Villa de dia na confeitaria Colombo, à noite no restaurante localizado no Teatro Municipal "Assírio" e Lucilia continuou lecionando.
Heitor começou a compor e Lucilia passou a ser intérprete Das obras de Villa-Lobos. Compôs no ano de seu casamento Fleur Fanée, a ópera Izath, sendo a fusão de pequenas óperas e o trio em dó menor. Em 1915 Villa-Lobos deu em Friburgo, em 1ª audição, obras suas num de Teatro de Friburgo, Estado do rio de Janeiro, com Lucilia ao piano, ele no violoncelo e Agenor Bens na flauta. Em 31 de julho de 1915 Villa-Lobos dá seu primeiro concerto no Rio de Janeiro, patrocinado pela Sociedade de Concertos Sinfônicos sob a regência do maestro Francisco Braga, no teatro São Pedro, hoje João Caetano, sendo executado a Suite Característica, recebendo muitas palmas animadoras.

Villa-Lobos, como regente, seu primeiro concerto teve lugar no salão do Jornal do Correio, provocando uma violenta reação entre críticos conservadores. Os interpretes eram Lucilia Guimarães Villa-Lobos (piano) Humberto Milano, Osvaldo Allioni (violoncelo) e Alberto Guimarães e Frederico Nascimento (canto).
O velho crítico do Jornal do Comércio, Oscar Guanabarino, em sua crítica fala que Villa não, poderia ser compreendido pelos músicos pela simples razão de que ele próprio não se compreendia no delírio de sua febre produção. A rebelião não ficava só no público ou na crítica, como também acontecia na própria orquestra que tinha de executar as suas peças , pois num dos ensaios do poema bailado Amazonas os músicos se rebelavam dizendo que aquela peça não fazia sentido.
Os artistas nacionais do musical o apoiavam, além dos internacionais Vera Janacó pulus e Rubinstein. De 1914 a 1920, produziu as composições: Danças Africanas: Farrapós, Kankukus e Kankikis; Concerto n.º 01, Quartetos de Cordas de n.º 1,2,3,4; O Canto do Cisne Negro; os poemas naufrágio de Kleônicos e centauro de ouro, a 2ª sonata para celo e violino, o oratório vidapura, as óperas Zé, Jesus e Malasarte, Prole do Bebê nº1; os bailados Amazonas e Uirapuru e Choro n.º 1.
Em 1917 é apresentado a Darius Milhand secretário de Paul Claudel, embaixador da França no Brasil, levando-o a escutar os grupos de chorões e seresteiros, aos terreiros de macumba, para conhecer melhor a música brasileira.
Em 1918 trava conhecimento com o pianista Artur Rubinstein.
A vida era dura para Villa que precisava de dinheiro para prover os gastos da casa.
Sua maneira de compor era impressionante, não necessitando de silêncio, de ambiente própria para o seu trabalho escrevendo composições sérias numa barulheira, com meninos a gritar , a pular por cima de móveis, ouvindo novelas de rádio. Chegava ao cúmulo de programar, para um espetáculo, determinada peça que ainda não tinha escrito. Mas isto era rápido.
Era só passar para o pentagrama e a música saia-lhe fluente, nas próprias orquestrinhas de teatro e cinema, nos intervalos.Lançava ao papel novas composições.
Alegre, vivo, simpático, tinha sempre a sua roda de amigos, não só entre os velhos "chorões" e seresteiros, como entre compositores e músicos eruditos.
Rubinstein encantava-se com o que ouvia, tornando-se um grande admirador e para ajudar o amigo, comprou algumas peças originais do compositor e numa entrevista concedida a notícia, em 1920 declara: Um grupo de amigos de Rubinsteins deseja ouvir o compositor brasileiro e que as composições de Villa não eram inferiores dos maiores compositores modernos da Europa. Sugeriu a empresários americanos que convidassem Villa a visitar os Estados Unidos a apresentar seus trabalhos orquestrais.

Em 1922, Villa-Lobos participa, em São Paulo, da semana de Arte Moderna, convidado por Graça Aranha e apoiado por Paulo Prado, a contratar os melhores artistas e seguir para São Paulo.
Para a programação das três noites, no Teatro Municipal, Villa-Lobos reuniu várias obras e seus interpretes eram Paulina d'Ambrósio, Lucilia Villa-Lobos, Fructuoso Viana, Ern6ani Braga, Guiomar Novaes e outros.Na regência o próprio compositor. Os espectadores assobiavam o principal tema. Lucilia e Paulina queriam parar enquanto Villa-Lobos ria. Cada número a ser apresentado novas manifestações desagradáveis até o último número. Um gaiato qualquer, no mais profundo silêncio, canta de galo com muita perícia pondo abaixo toda a emoção que o auditório possuía.
Não só os conferencistas e poetas da semana foram vaiados. A música de Villa-Lobos também recebia as pateadas de um público reacionário. O próprio maestro foi ridicularizado, pois ao vê-lo entrar no palco de casaca e chinelo, pois estava doente de um pé, prorromperam os assobios. Quando o barítono nascimento Filho cantava as últimas notas de uma canção, alguém, nas galerias, gritou: Ridi Papliácci. Nascimento respondeu: "desce para eu te ensinar como se canta". E fez gestos ao público para brigar na rua, o que aconteceu. No dia seguinte o jovem cantor aparecia para ensaiar com um olho arroxeado. Villa-Lobos divertiu-se muito com a semana sempre bem humorado, não deu a mínima para as vaias.
A reação foi proveitosa. Os rapazes de 22 conseguiram trazer a questão artística para o plano nacional. O campo estava preparado para o encontro de uma arte verdadeiramente nossa.
Em 1923 Villa-Lobos faz a sua primeira viagem à Europa. "O índio de casaca", na comparação de Menottidel Picchia, Rubinstein e Vera Janacópolus e com a ajuda do governo Epitácio Pessoa e o deputado federal Artur Lemos apresentaram um projeto em que seria uma verba de 108 contos de réis, que depois passou para 40 contos de réis e que finalmente 20 contos de réis para que o compositor Villa-Lobos, apressentasse concertos por diversas cidades da Europa, pudesse exibir suas obras. Várias dificuldades surgiram, mas que doutro lado, os centros artísticos europeus o esperavam. Convites pessoais e oficiais já haviam lhe chegado às mãos de Portugal, França e Espanha e Alemanha. Partira sem levar sua esposa Lucilia, pois as dificuldades eram muitas.
Novas composições se destacavam no acervo de Villa-Lobos como Lenda de Caboclo (piano); Sonata n.º 03 (piano e violino); A fiandeira (piano); Malazarte (ópera; prole do bebê n.º 02 (piano). Não vim à París para me aperfeiçoar nos meus estudos musicais, não!Aos repórteres declarava: "Vim mostrar o que fiz. Se gostarem ficarei, senão voltarei para a minha terra".
Contam que certa ocasião uma senhora francesa perguntou-lhe se ele ainda comia gente. O maestro respondeu que sim, mas que no momento só gostava de crianças especialmente as francesas, que eram as mais tenrinhas.
Em 1924 foram apresentadas as peças de Villa-Lobos. Vera Janacópolus canta "Epigramas Irônicos e Sentimentais" e Rubinstein executa a Prole do Bebê. É executado o 3º tio de Villa-Lobos, em París, tendo como interpretes os brasileiros Laranjeiras e Sousa Lima.
Por essa ocasião morava em París Tarsila do Amaral, que ofereceu um almoço convidando as mais famosas personalidades do meio artístico como: João de Sousa Lima, Coteau, Satie e Villa-Lobos, recém chegado do Brasil. Terminado o jantar, surgiu a conversa, a arte de "improvisar".
Logo sentou-se ao piano, apanhou um tema e começou a improvisar dentro de uma linha rítmica inteiramente pessoal. Estavam abismados com a beleza daquela música, escrita por um "índio" vindo do Brasil.
Villa encontra o espanhol Tomas Teran, pianista e se tornam grandes amigos, chegando a morar juntos e viajar para cidadezinhas de Lussac onde passavam horas conversando e empinando papagaio.
Férias acabadas volta à París e volta a participar intensamente do meio artístico.
Em 1926 foi a Buenos Aires, onde realizou três concertos. Voltando à Europa, deu recitais de música de câmara; regeu orquestras em Londres, Madri, Barcelona, Viena, Berlim, Lisboa.
Mais tarde passava Villa a revisor da casa editora Max - Echig, a casa que editou suas primeiras obras e foi convidado para professor de composição em París.
Em 1927 Villa pode trazer a mulher Lucilia para París, passando a receber a fina flor do ambiente artístico parisiense. Villa faz amizade com Segóvia, violonista.
Villa-Lobos mascara o seu lugar em París e marca-o pela força de seu talento. Sua música, seus ritmos e suas harmonias deixavam os franceses em pânico e para sossegá-los contava que era filho da natureza e relatava sua caminhada pelo Brasil.
Em 1930 Villa-Lobos volta ao Brasil a convite de D. Olívia Penteado para dar concertos em São Paulo, trazendo consigo Sousa Lima. Elabora também um plano de educação musical que é apresentado à Secretaria de Educação de São Paulo.
Passando por Recife Villa foi muito festejado e a pedido deles organizou dois concertos bem variados que incluía a Fantástica, os trios n.º 1 e 3 e Momoprecoce, sendo um grande sucesso, Sousa Lima ao piano e Miaurice Raskin ao violino. Conta Sousa Lima que depois de um concerto, quando voltavam para o hotel, foram surpreendidos por um grupo de seresteiros e de imediato Villa disse, metido na casaca: "é com eles que eu vou".
Chegando ao Rio matou a saudade da terra e da família. Em São Paulo a política fervia, e Villa músico e não político não era homem de ficar de braços cruzados. Procurou Júlio Prestes, presidente do Estado e candidato à presidência da República que lhe prometera apoio.
Mas a vitoriosa revolução depôs o presidente Washington Luís e colocou Getúlio Vargas, resolvendo Villa embarcar para a Europa. Porém um dia um oficial graduado, convida-o a comparecer ao Palácio dos Campos Elíseos, convidado pelo tenente Alberto Lins Barros, interventos em São Paulo, convida-o para debater com ele o seu plano musical para as escolas e povo. Desiste de ir para a Europa e fez uma tourneér artística para a difusão da música pelo interior de São Paulo, Minas Gerais e Paraná, formando uma caravana Lucilia, Villa-Lobos, Antonieta Rudge, a cantora Nair Duarte, Sousa Lima e com eles ia o piano porque no interior não havia para concertos e foram visitar 68 cidadezinhas. Havia bandas que comoviam o coração do nosso Villa e o povo não conhecia um piano de calda.

O compositor propôs a um grupo de jovem, que dizia que não sabia cantar, um trecho de música a quatro vozes e escreveu sobre uma mesa de mármore uma frase de dezesseis compassos que seria a primeira voz numa segunda mesa escreveu a segunda voz e o mesmo para a terceira e quarta voz. Ensaiou por voz e depois juntou-as. Os rapazes achavam-no um grande professor e um mágico encantador ...


Foi ainda nessa tournée pelo interior paulista, num trem da Sorocabana, no sacolejo todo entre uma estação e outra escreveu a Caixinha de música quebrada dedicada a Sousa Lima. Dessa excursão nasce, também, a idéia do "Trenzinho do Caipira".
Terminado o roteiro da caravana artística Villa organizou uma concentração orfeônica, a que lhe deu o nome de exortação cívica. Tomaram parte 12 mil vozes, com elementos de todas as classes sociais. A propaganda desse belo agrupamento de canto orfeônico, o primeiro trabalho na América do sul, seria através de programas, cartazes e folhetos conclamando o povo a participação de um belo espetáculo de civismo, distribuídos em escolas, academias, lançados por aviões como uma chuva de papel sobre a cidade de São Paulo.
Foi um espetáculo de rara beleza a apresentação.
Convidado por Anísio Teixeira, em 1932, a debater o problema do ensino de música e do canto orfeônico nas escolas do Distrito Federal. Radiante, Villa-Lobos aceita o convite do secretário. Foi, então, criado o curso de Pedagogia de música e canto Orfeônico para facilitar os professores, ministrado pelo próprio Villa.
Assim surgiu o Orfeão de professores do Distrito Federal, fundado pela Sra. Constança Teixeira Bastos.
Em 1930 Villa-Lobos inicia a série de suas Bachianas Brasileiras, que seriam em número de nove e em forma de suite e que só terminaria em 1945. Elas são um contraponto popular das nossas modinhas, das violas caipiras, dos sons.
De 1932 a 1941 Villa-Lobos, escolhia sempre as datas cívicas, com cânticos que exaltassem esses momentos.
No campo Fluminense, com o Orfeão de professores e alunos das escolas primárias e secundárias do Distrito Federal sob a regência de Villa-Lobos, demonstração de canto Orfeônico,Com a maravilhosa polifonia de Bach.
De 1932 a 1933 foi grande a produção (recolhimento de cantigas de roda, com arranjos adequados, para aproveitamento do ensino de canto orfeônico), que compunham uma série de álbuns que é hoje Guia Prático. Compõe modinhas e canções, o Descobrimento do Brasil (quatro suítes) e Quarteto de cordas n.º 06.
Em 1932 conheceu Arminda Neves d' Almeida, musicista, havia escrito um Tratado de teoria musical, pois queria a opinião de Villa-Lobos.
Encantou-se com ela e a convidou para trabalhar com ele no serviço de música e canto Orfeônico da Prefeitura. Ela vacilou, pois lembrava da maneira como fora tratada pelo maestro, todo cheio de mesuras e atenções, que a pusera um tanto desnorteada. Voltou no dia seguinte querendo participar, como aluna do curso de Pedagogia da música e canto Orfeônico, de que ele, Villa-Lobos era o diretor, vendo-a com mais freqüência.
Deu-lhe o cargo de copista que ela fazia com perfeição e um dia declara o seu amor. Mas é casado e a mulher não lhe quer conceder o desquite. Assim os dois passam a se gostar, mas, a distância.
Em 1936 a convite do governo de Checoslováquia comparece ao congresso de Educação Musical Popular, em Praga.
De Berlim envia carta á mulher, rompendo com a união do casal. De volta ao Brasil, passa a morar no apartamento 54, da rua Araújo Porto Alegre, 56 e Arminda Neves d' Almeida é a sua nova mulher, sendo um oásis na vida Villa-Lobos. Seu apartamento era um lugar de alegria.
Dona Noemia fez forte oposição a nova união do filho, pois prezava muito a sua nora Lucilia. Mulher sofrida, mas prática conhecedora da vida, aceitou a nova situação do filho e se entenderam com muito carinho. Dna. Noemia morreu aso 85 anos, e Villa-Lobos, pela primeira vez, passou quinze dias de sentido pesar, sem sair de casa.
As décadas de 40 e 50 foram de maior intensidade na vida de Villa-Lobos, quer como compositor quer como regente.
Foi o período de sua consagração. Tornou-se conhecido no Mundo inteiro. Suas composições eram tocadas em todos os continentes. No repertório dos grandes regentes figuravam sempre peças de Villa-Lobos.
Em 1940 houve uma concentração , no estado do clube Vasco da Gama, de 40 mil escolares, numa demonstração de canto orfeônico sob sua regência dele.
Em 1941 nova demonstração de canto orfeônico no estádio do Vasco da Gama sob a regência Villa-Lobos, Sílvio Caldas canta o Gandoleiro do Amor, de Castro Alves, acompanhada por 30 mil vozes.
Em 1942 criação do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico Decreto - lei n.º 4993, de 26-11-1942. É eleito para a Sociedade dos Homens de Letra. Em 1943 recebe pela Universidade de Nova York, o título de Doutor Honoris Causa.
Ainda nesse ano Villa-Lobos rege no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, dois concertos sinfônicos, apresentando a Bachiana Brasileira nº 04, os Choros n 7 6,9 e 11.
Em 1944 o Ocidental College de Los Angeles concede a Villa-Lobos o título de Doutor em Leis Musicais.
Em 1945 é criada a Academia Brasileira de música, da qual Villa-Lobos foi o seu idealizador e primeiro presidente.
Em 1946 recebe o prêmio de música, concedido pelo Instituto Brasileiro de Educação, Ciência e Cultura.
Em 1948 Villa-Lobos adoecera gravemente.
O médico depois de cuidadoso exame pediu que partisse para uma intervenção cirúrgica nos Estados Unidos, havia possibilidade de cura. Cercado pelo calor dos amigos, resolveu por fim partir, acompanhado por D. Arminda, seguindo para o Memorial hospital. Bem sucedido em 1949 a 1959 reinicia suas tournées pelas principais cidades da Europa e das Américas, regendo grandes orquestras sinfônicas na apresentação de suas obras.
Em 1957 por motivo de seus setenta anos o New York Times publica editorial em sua honra. São Paulo promove a semana Villa-Lobos e o compositor recebe o título Cidadão Paulistano. O compositor assistiu no Teatro Municipal de São Paulo a sua 10ª sinfonia sob a regência do Maestro Sousa Lima. Nessa semana Villa-Lobos inaugura o Conservatório Musical "Heitor Villa-Lobos à Av. do Estado, 4567 - São Paulo - Diretores fundadores Prof. Osvaldo De Vincenzo e Manfredo De Vincenzo.
Em 1959 teve uma trombose numa das vistas, mas logo se restabeleceu e viajou para Trieste, regendo o último concerto na Europa. Volta novamente aos Estados Unidos e no dia 12 de julho, na cidade de Bear Mountain, perto de Nova York rege suas obras pela última vez com a orquestra Symphony of the Air.
Nesta sua temporada Americana vem ao Brasil para receber a medalha Carlos Gomes, pelo cinqüentenário do Teatro Municipal do Rio de Janeiro.
A doença que o havia levado a uma operação no Memorial Hospital de Nova York em 1948, volta a agravar-se e o compositor é internado no hospital dos Estrangeiros.
Em 17 de novembro, Villa-Lobos falece na sua residência da Araújo Porto Alegre, 56. Seu corpo foi velado no salão nobre do Palácio da Cultura e no dia seguinte (18) é sepultado com grande acompanhamento, no cemitério de São João Batista.
Em 1960 é criado o Museu Villa-Lobos, pelo Decreto - lei n.º 48.378 de 22-06-1960.
Em 1961 o Prefeito de Nova York, Robert Wagner, proclama o dia 5 de março como dia "Villa-Lobos".
Em 1961 Arminda Villa-Lobos fica à frente do Museu Villa-Lobos, sempre modesta, ela, a quem o compositor passou a dedicar todas as suas obras, e sem ela ele não saberia viver.
Depois do falecimento da Snra. Arminda Villa-Lobos, Prof. Turíbio Santos, Violonista, é Diretor do Museu Villa-Lobos, do rio de Janeiro.

Em 1967 o ex - Conservatório Nacional de Canto orfeônico passa a chamar -se Instituto Villa-Lobos, pelo Decreto n.º 61.400, de 01-10-1967.

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